Nova Norma Chinesa Define Testes para Veículos a Célula de Combustível

Nova Norma Chinesa Define Testes para Veículos a Célula de Combustível

O setor automotivo global está passando por uma transformação profunda, impulsionada pela urgência de descarbonizar o transporte e pela busca por fontes de energia mais limpas e sustentáveis. Neste cenário, os veículos elétricos a célula de combustível (FCEV), movidos a hidrogênio, emergem como uma tecnologia promissora, especialmente para aplicações em transporte pesado e frotas comerciais, onde as limitações de autonomia e tempo de recarga dos veículos elétricos a bateria (BEV) ainda representam um desafio. A China, um dos principais motores do mercado de veículos elétricos, intensificou seus esforços para se tornar um líder na economia do hidrogênio. Um marco fundamental nesse caminho foi a publicação e implementação da norma nacional GB/T 43252-2023, intitulada Métodos de teste do consumo de energia e da autonomia para veículos elétricos a célula de combustível. Este documento técnico representa um avanço crucial na padronização e na avaliação objetiva do desempenho desses veículos, estabelecendo um protocolo claro e rigoroso para medir dois dos seus parâmetros mais importantes: o consumo de hidrogênio e a distância que podem percorrer com um tanque cheio.

A introdução desta norma é muito mais do que um ajuste técnico. Ela é um reflexo do amadurecimento do ecossistema de veículos a hidrogênio na China, um país que já lançou grandes zonas de demonstração em regiões como Xangai, Guangdong e a área de Pequim-Tianjin-Hebei. Essas iniciativas visam acelerar a comercialização da tecnologia, desenvolver a infraestrutura de abastecimento e fortalecer toda a cadeia de valor. No entanto, sem um padrão comum para testes, os dados de desempenho fornecidos pelos diferentes fabricantes eram difíceis de comparar. A falta de uniformidade gerava incerteza entre consumidores, frotistas e formuladores de políticas, minando a confiança na tecnologia. A GB/T 43252-2023 aborda diretamente esse problema, fornecendo um método científico, transparente e reprodutível para avaliar os FCEVs em um dinamômetro de rolos, um ambiente de laboratório controlado.

O escopo da norma é abrangente, aplicando-se a veículos das classes M (passageiros) e N (comerciais) que utilizam hidrogênio gasoso comprimido como combustível. Isso inclui desde carros de passeio e ônibus urbanos até caminhões pesados e veículos de tração, cobrindo os segmentos onde o hidrogênio tem maior potencial de impacto. Um dos aspectos mais sofisticados da norma é sua capacidade de lidar com a complexidade inerente à arquitetura dos veículos a célula de combustível. A maioria desses veículos não depende apenas da célula de combustível; eles combinam uma pilha de combustível com uma bateria recarregável (REESS), geralmente de íons de lítio. A pilha de combustível converte hidrogênio em eletricidade de forma contínua, enquanto a bateria fornece potência adicional em acelerações, armazena energia recuperada na frenagem e atua como um buffer. Essa interação entre as duas fontes de energia torna a medição do “consumo real” um desafio técnico. Quanta da energia utilizada vem diretamente do hidrogênio consumido e quanta vem da bateria, que pode ter sido carregada pela própria pilha de combustível?

Para resolver essa complexidade, a norma adota uma abordagem inteligente e diferenciada, classificando os veículos em duas categorias distintas: Tipo A e Tipo B. Essa classificação é baseada em um parâmetro crítico, chamado de α (alfa), que é a razão entre a variação líquida de energia da bateria (REESS) durante um ciclo de teste e a energia total derivada do consumo de hidrogênio. Se o valor de α for menor ou igual a 1%, o veículo é classificado como Tipo A. Isso indica que a pilha de combustível é a fonte de energia dominante, e a bateria desempenha um papel secundário, contribuindo com menos de 1% para a autonomia total. Por outro lado, se α for maior que 1%, o veículo é classificado como Tipo B, o que significa que a bateria fornece uma contribuição significativa para a energia de propulsão e deve ser considerada uma fonte de energia ativa no cálculo do desempenho.

Essa distinção é fundamental, pois determina completamente o método de teste a ser utilizado. Para os veículos Tipo A, onde a contribuição da bateria é mínima, a norma permite um “método encurtado” (shortened method). Esta é uma solução prática para melhorar a eficiência dos testes, especialmente para veículos comerciais de grande porte que podem transportar centenas de quilogramas de hidrogênio. Em vez de esvaziar completamente o tanque – um processo que poderia levar horas e consumir grandes quantidades de recursos – o método consiste em realizar seis ciclos completos de um ciclo de condução padronizado. Durante esses ciclos, são medidos com precisão a massa de hidrogênio consumida, a distância percorrida e os parâmetros elétricos da bateria. A partir desses dados, calcula-se o consumo de hidrogênio por 100 quilômetros. A autonomia total do veículo é então determinada por extrapolação proporcional, utilizando a massa total de hidrogênio utilizável no tanque. Este método é válido porque, em veículos Tipo A, o consumo de energia por ciclo é extremamente consistente, já que a bateria não se descarrega nem se carrega de forma significativa durante o teste.

O procedimento para veículos Tipo A é meticuloso. Ele começa com uma fase de preparação que inclui um rodízio prévio: o veículo deve ser conduzido por pelo menos 300 km utilizando o sistema de célula de combustível para garantir que todos os componentes estejam em um estado de funcionamento estável. Em seguida, o veículo deve permanecer em repouso (ou “imerso”) por pelo menos duas horas a uma temperatura controlada de 23±3 °C. O dinamômetro é então calibrado para simular as forças de resistência ao rolamento e aerodinâmica do veículo, utilizando dados obtidos de acordo com as normas GB/T 18352.6-2016 ou GB/T 27840-2021. Após um ciclo de aquecimento, os seis ciclos de teste são realizados. Uma etapa crítica posterior é a determinação da “pressão de corte” (cut-off pressure). Após os seis ciclos, o veículo, utilizando apenas o hidrogênio restante em seu tanque, deve ser conduzido até que não consiga mais manter o perfil de velocidade do ciclo de teste. Nesse ponto, é adicionada uma pequena quantidade de hidrogênio (não mais que 0,05 kg) e a pressão de equilíbrio resultante é registrada. Essa pressão de corte é essencial para calcular com precisão a massa total de hidrogênio utilizável, que é a diferença entre a massa à pressão nominal e a massa à pressão de corte.

Para veículos Tipo B, que dependem mais da bateria, é necessário um método mais completo: o “método de esgotamento” (run-out method). Aqui, o objetivo é consumir completamente todas as fontes de energia do veículo. O procedimento começa com uma fase de preparação ainda mais rigorosa, especialmente em relação ao abastecimento de hidrogênio. É utilizado um processo em duas etapas: primeiro, um “abastecimento grosso” até que o indicador de nível de combustível (SOC) ultrapasse 90%, seguido por um “abastecimento preciso”. Este último envolve o cálculo de uma pressão alvo com base na temperatura ambiente, o abastecimento até alcançá-la, uma espera de duas horas para estabilizar temperatura e pressão, e então a verificação se a pressão real corresponde à alvo. Se não corresponder, o processo é repetido. Esse protocolo garante que o tanque esteja realmente cheio, eliminando erros que poderiam surgir da expansão térmica do gás. Simultaneamente, o estado de carga (SOC) da bateria é ajustado a um valor inicial especificado.

Uma vez preparado, o veículo é submetido a um ciclo de condução padronizado até que não possa mais continuar, seja porque o sistema de propulsão não consegue manter a velocidade exigida, seja porque um aviso de baixa potência é acionado. A distância percorrida até esse ponto é a autonomia medida. A análise de dados para veículos Tipo B é mais complexa, pois requer a separação das contribuições da pilha de combustível e da bateria. A energia proveniente do hidrogênio é calculada diretamente a partir da massa de hidrogênio consumida e de seu poder calorífico inferior. A energia fornecida pela bateria é determinada de forma indireta: após o teste, a bateria é recarregada completamente da rede elétrica. A energia elétrica consumida da rede durante essa recarga é igual à energia líquida que a bateria forneceu ao sistema de propulsão durante o teste (ajustada por pequenas perdas). Com esses dois valores, é possível calcular a autonomia total e a fração dessa autonomia atribuível a cada fonte de energia.

A norma também faz uma distinção entre veículos Tipo B que podem ser conectados a uma fonte de energia externa (Plug-in) e aqueles que não podem. Para veículos não Plug-in, se o cálculo mostrar que a bateria teve uma variação líquida de energia negativa (ou seja, foi carregada mais do que descarregada durante o teste), assume-se que toda a energia veio da pilha de combustível e apenas o consumo de hidrogênio é informado. Essa lógica assegura que a bateria não seja contada como uma fonte de energia primária, mas sim como um sistema de armazenamento secundário.

A implementação da GB/T 43252-2023 tem implicações profundas. Para os fabricantes, ela fornece clareza e previsibilidade, permitindo-lhes projetar e calibrar seus veículos com um objetivo de teste bem definido. Para os laboratórios de certificação, estabelece um protocolo claro que melhora a consistência e a credibilidade dos resultados. Para os responsáveis por políticas públicas, oferece dados confiáveis para projetar incentivos e avaliar o progresso em direção aos objetivos de sustentabilidade. E para os consumidores e operadores de frotas, significa que os números de autonomia e consumo que veem em folhetos ou em postos de abastecimento são baseados em um padrão rigoroso e transparente, o que fortalece a confiança na tecnologia.

Wu Shiyu, Wang Guozhuo, Wang Zhijun e Guo Ting do China Automotive Technology Research Center Co., Ltd. e China Automotive Inspection Center (Tianjin) Co., Ltd. analisaram a aplicação desta norma na revista Standard Science 2024, número 3, DOI: 10.3969/j.issn.1674-5698.2024.03.017. Seu trabalho fornece uma orientação essencial para técnicos do setor, destacando a importância da preparação do veículo, da calibração do dinamômetro e do manuseio preciso do hidrogênio, e enfatiza como esta norma é um pilar fundamental para o desenvolvimento futuro da tecnologia de veículos a célula de combustível.

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